Alunos descobrem Machado de Assis
Data de Publicação: 27 de maio de 2008
Neste ano, quando se comemora o centenário de morte de Machado de Assis (29 de setembro), encontramos, em São Luís, jovens do Colégio Santa Teresa, da faixa etária de 16 anos, apaixonados por sua linguagem. Coincidentemente, foi aos 16 anos de idade, em 1855, que o carioca Machado de Assis publicou seu primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista
Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo.
Mas, quando a professora de Português e Literatura, Socorro Marinho, apresentou o projeto “100 anos de morte de Machado de Assis” à coordenação pedagógica do Santa Teresa, que traz entre os objetivos a leitura dos contos e análise dos textos, algumas questões foram levantadas. Como envolver os alunos na viagem de Machado de Assis, de modo que não realizem o trabalho apenas com a finalidade de uma boa nota, mas que entendam a mensagem contida nas obras? “A leitura é árida. Não é fácil, mas pensei: por que não? Seus temas estão na vida cotidiana e ele foi um brasileiro ligado à escravatura. Sua história está ligada às nossas raízes. Ler Machado de Assis é entender mais o nosso país”, avaliou a professora.
E assim o projeto começou ano passado e encerra neste semestre com a produção de um site sobre o escritor. O público-alvo do projeto são alunos do Ensino Médio. A primeira etapa foi indicar 29 contos aos alunos da 1ª série. Um passo importante para familiarizar os jovens com a proposta foi pesquisar na internet sobre o autor. “Eles ficaram impressionados com tantos sites sobre o tema e se interessaram ainda mais”, conta Socorro Marinho. Para contextualizar com o presente, os alunos leram os contos e tentaram compará-los à realidade brasileira.
Na segunda etapa do projeto os alunos para escolheram uma obra entre a trilogia Dom Casmurro, Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Eles teriam que ler uma obra e depois debatê-la em sala, culminando com as provas. Tudo foi indo muito bem, mas o que a professora Socorro não contava era que vários alunos escolhessem mais de uma obra para ler e que se reunissem, de forma voluntária, para trocar idéias. Ou seja, os alunos entraram mesmo no mundo de Machado de Assis.
Lucas Mendes, de 16 anos, escolheu inicialmente Memórias póstumas de Brás Cubas, e diz que no início estranhou as palavras “complicadas”, mas que utilizou recursos para superar a dificuldade. “A história é tão envolvente, que as palavras estranhas não me fizeram parar de ler. Na maioria das vezes, dá para entender o sentido no contexto, mas quando não conseguia, buscava o significado no dicionário”. Ele diz que escolheu Memórias...por achar intrigante o roteiro. “Achei incrível a personagem analisar a vida inteira dele como espectador, não como quem viveu”, diz. “A mensagem mais forte pra mim foi ver que Brás Cubas passou pela vida sem construir nada de valor. Ele morreu rico, mas sem mulher, sem filho, sem ninguém nem para receber sua herança. A frase final pra mim é muito forte: ´Morri sem ter ninguém a quem deixar o legado de nossa miséria´”.
Já Victor Freitas, 15, e Camila Amorim, 16, escolheram Dom Casmurro, pela curiosidade de saber o que aconteceu com Capitu, a personagem sobre a qual paira a dúvida se traiu ou não o marido Bentinho. “Eu já sabia que existia a Capitu, só não imaginava que encontraria tantas metáforas, tantas mensagens nas entrelinhas da estória. É fascinante”, diz ela, que também leu Quincas e diz que ficou “impressionada” como Machado de Assis usa o mesmo tema com formas diferentes. “Nas duas obras existe o adultério, mas as visões são diferentes. Numa ela é tentada a trair, noutra ela conta pro marido”. E Victor complementa: “Outro ponto interessante é que, normalmente, ele trabalha na primeira pessoa mas às vezes, começamos a duvidar do narrador. Quando ele fala que seu filho com Capitu é muito parecido com o melhor amigo, Escobar, ficamos em dúvida, pois ele usa muito o “parece”. E perguntamos: será que é mesmo?”. O colega Neto completa: “O que mais difere Machado de Assis dos outros escritores é que cada leitor vai ter uma opinião da obra”.
Um hábito de leituraOutros resultados positivos surgiram deste projeto. Neto, por exemplo, vai prestar vestibular para Medicina e confessa que seu ponto fraco é o Português. Com o hábito da leitura, ele disse que já sente avanços. “Ler nos dá o domínio da língua”, afirma. Camila, Lucas e Victor, que fizeram vestibular seriado em Brasília, também contabilizam ganhos. “Na prova havia muitas questões sobre crítica, coesão e análise, e grupo todo teve índice muito bom”, disse Camila.
Os quatro jovens mantêm o hábito de ler periodicamente. “Estou sempre lendo alguma coisa. Seja material informativo, como revistas semanais, ou ficção”, disse Victor. “Atualmente tem cinco livros que eu quero ler. No momento, tô lendo a biografia de Einstein e estou adorando. Não imaginei que encontraria ali o que estou vendo em Física no colégio”, diz Lucas.
Todos afirmam que o prazer pela leitura é estimulado pelos pais. “Meus pais são formados em Comunicação, e o que não falta lá em casa é livro”, conta Camila. “Embora meu pai não seja formado na área de Humanas, ele é Químico, desde pequeno compra livros para eu ler”, diz Victor. “Minha mãe é dona de casa e meu pai, militar, e o livro sempre teve prioridade”, disse Neto. “Meu pai é sociólogo e minha mãe é formada em Comunicação. Eles sempre estão lendo e sempre disseram para eu ler, então, eu me acostumei a me interessar por tudo. As eleições nos Estados Unidos, por exemplo, afetam o mundo inteiro, não só aos americanos. Portanto, tenho que me informar sobre isso. E assim, vou lendo de tudo um pouco”.
Liliane MoreiraAssessora de Imprensa